o pão é um milagre egípcio

por ramiro murillo 

Em qualquer esquina do mundo a probabilidade de se encontrar um pão é muito alta. Ele, que foi sagrado por tantos séculos em diferentes culturas, acabou ficando banalizado pela indústria moderna.

 

Uma simples máquina faz pão. É só misturar farinha, água, sal e fermento, apertar o botão e esperar. Claro que você obterá um pão do qual enjoará muito rapidamente, pois não tem a arte de um pão artesanal, nem o sabor de um pão fermentado naturalmente.

 

Mas o fato de uma máquina poder fazer pão sozinha implica o quão presente é o pão em nossas vidas, e acabamos deixando de perceber o milagre que é a existência do pão.

 

Fazer pão não é nada óbvio!

 

É sabido que na antiguidade cada povo cultivava cereais diferentes, de acordo com sua geografia. De há mais ou menos dez mil anos para cá, a humanidade se alimentou basicamente de arroz, aveia, sorgo, cevada, trigo, centeio e milho.

 

Mas como estes cereais eram consumidos na antiguidade?

 

O historiador alemão Heinrich Eduard Jacob, em seu essencial livro Seis mil anos de pão, conta que o habitante nórdico da antiguidade consumia seus cereais torrando os grãos sobre pedras aquecidas e juntando-lhes água, transformando-os numa pasta:

 

“Quando tinha disposição para isso ia um pouco mais longe. Espalhava uma camada desta pasta em cima das cinzas ou vertia-a sobre pedras quentes e esperava que ficasse rija e quebradiça. Protegia assim a papa de cereal contra um apodrecimento rápido, mas em contrapartida tirava-lhe o gosto.”

 

Logo após esta narração, ele cita a determinante frase de Plínio:

 

“De papas, não de pão, viveram durante muito tempo os romanos manifestamente.”

 

E ele continua:

 

“Os gregos, como se pode ver em pinturas de vasos do século VI, comiam seu pão – que de fato não o era – sob a forma de bolos não fermentados, cozidos em cima de um lume de carvão vegetal, e que eram enrolados para ser preservados. Os germanos, na época em que entraram em conflito com os romanos, não conheciam senão as papas de sêmola de aveia, e os eslavos, mesmo muito mais tarde, apenas dispunham da sua ‘kasha’. E os próprios assírios, esses homens de barbas negras, contemporâneos dos egípcios, comiam no café-da-manhã uma conserva de tâmaras acompanhada por fatias quentes de um bolo de cevada que também ainda não era verdadeiro pão.”

 

Os egípcios da antiguidade eram um povo muito habituado à magia. E talvez seja isso o que possibilitou a criação do pão. Jacob cita Heródoto, que dizia que o povo egípcio “faz tudo diferentemente dos restantes mortais”. E logo faz uma importante reflexão sobre a fermentação na massa de pão:

 

“Enquanto todos os outros povos temiam o apodrecimento dos alimentos, os egípcios dispunham a massa obtida a partir da farinha de modo a obrigá-la a entrar num processo à primeira vista semelhante ao apodrecimento. (...) Era nem mais nem menos do que a fermentação.”

 

Os egípcios, então, tiveram a particularidade de encarar aquele processo borbulhante e que exalava um aroma ácido como algo necessário para a produção de um nobre alimento.

 

Não se sabe o que veio antes, se a cerveja ou o pão. Mas o fato é que os egípcios fermentavam. E perceberam que, se separassem um pouco de uma massa já fermentada e adicionassem a uma nova massa, esta fermentaria mais rápida e intensamente. Eles criaram então o fermento, que reproduzia a si mesmo e “passou a ser guardado nos lares egípcios com aquele cuidado que outros povos punham na conservação do fogo”.

 

E o fato de fazer a massa fermentar é só o primeiro, ainda que fundamental, passo para a criação do pão. O segundo, foi colocar aquela massa para assar:

 

“Os egípcios tiravam a massa fermentada do alguidar, juntavam-lhe sal e voltavam a tendê-la mais uma vez. Espalhavam argila úmida sobre o prato que ia ao forno para que a massa não colasse, depois dividiam a massa fermentada com uma espátula, colocavam tudo no forno e fechavam a entrada.”

 

A massa assada nada tinha de semelhanta à massa crua:

 

“O que retiravam do forno poucas semelhanças tinha com o que lá tinham posto. Era uma ‘metamorfose da matéria’. Farinha, água, sal e fermento tinham-se confundido no meio de uma dança comandada pelo fogo. Uma vez terminada, o resultado, o pão, já não tinha nenhuma semelhança com nenhum dos participantes. Que havia em comum entre o miolo do pão, fofo e crescido, ou a casca escura e aromática, por um lado, e a água ou a farinha, por outro? Um tal resultado tinha de ser obra de algum espírito. Uma autêntica magia! E os egípcios eram especialistas em artes mágicas.”

 

Os padeiros egípcios foram verdadeiros mágicos, alquimistas da antiguidade. Talvez por ser uma cultura habituada às práticas mágicas que eles tivessem estas ousadias de transformações da matéria. Jacob diz ainda:

 

“O forno de pão foi de fato o primeiro ‘forno de experimentação química’ do mundo. E para os egípcios foi também, ao mesmo tempo, o primeiro forno de práticas mágicas. E não deixa de ser curioso que, enquanto aos outros povos os deuses proibiam a magia como uma ‘infração sacrílega às leis da causalidade’, os egípcios estivessem explicitamente autorizados a praticá-la.”

 

Voltemos então ao começo: como é que um povo fez com que uma gramínea selvagem que crescia nos planaltos do norte da África gerasse um alimento que revolucionaria a humanidade?

 

Primeiro, o trigo selvagem desceu dos planaltos do Egito para as margens do Nilo.

 

Segundo, o trigo foi amplamente cultivado, com arado, técnica que exige muito esforço braçal.

 

Terceiro, o trigo colhido foi moído para produzir farinha.

 

Quarto, fez-se uma papa deste trigo com água.

 

Sexto, amassou-se esta papa para formar uma massa que esticava.

 

Quinto, pôs-se esta massa a fermentar.

 

Sétimo, assou-se esta massa.

 

Em sete importantes passos, nasceu o pão, como uma criação divina. Não é à toa que Cristo disse a seus discípulos: “Tomai e comei! Eu sou o pão.”

 

O pão é um milagre, é alquimia, magia e ciência.

 

A humanidade nasceu na África. E seu principal alimento também.

Ramiro Murillo

jan/2020