AMO COMER, LOGO COZINHO

por ramiro murillo

Tenho alguns amigos que me acham exigente demais quando vou a um restaurante.

 

Admito, mas é porque amo comer. E percebo muito bem quando um prato foi feito com amor e com técnica, ingredientes fundamentais para um cozinheiro. Não basta ter técnica, é preciso imprimir amor naquele prato. Para quem ama comer como eu, isto não é difícil, é algo inerente ao processo de cozinhar. Cozinho porque amo comer. Amo comer sozinho, amo comer com meus amigos, amo conquistar alguém pela barriga.

 

A técnica é algo que se adquire com estudo e prática, digamos que de fora para dentro: podemos aprender com alguém, ver videos, ler livros, fazer cursos. Há mil caminhos possíveis.

 

O amor pela comida, porém, é algo que começa em nosso paladar.

 

Minha paixão por experimentar novos sabores e texturas me levou à vontade de cozinhar e de trabalhar com comida. O paladar é desenvolvido na primeira infância, e foi quando comecei a acessar a memória do meu paladar de criança que naturalmente fui ganhando habilidade e fluência para cozinhar. Hoje percebo que é porque estou ancorado em minha ancestralidade. Eu me conecto com minhas avós e as avós que cozinhavam para minhas avós. O paladar é autoconhecimento, não tenho dúvida.

 

Então quando sento para comer em um restaurante e percebo que há amor e técnica naquele prato, não importa o nível de sotifiscação (pode ser um self service caseiro ou um lamen autoral), eu me sinto agradecido e em geral faço questão de ir até a cozinha e agradecer/cumprimentar a cozinheira ou cozinheiro que me proporcionou aquela experiência.

 

Aprender a cozinhar também me proporcionou uma grande liberdade. Quando tem algo que gosto muito, eu percebo: “Caramba, eu posso preparar isto em casa!” E quase sempre que me dedico a tentar executar uma receita, mesmo que leve meses, a minha versão caseira fica muito gostosa para o meu paladar, e acabo transformando-a do meu jeito.

 

Quando comecei a fazer massas caseiras, aquelas italianas, percebi que não precisava de máquina para esticar a massa. Eu fui ver videos de nonas italianas estendendo a massa no rolo e cortando na faca. Como tenho um apreço pelo rústico, quis aprender a fazer assim. E comecei a praticar e praticar, até que hoje poderia facilmente montar uma casa de massas caseiras, pois toda vez que preparo, as pessoas que fazem ficam encantadas, e eu mesmo acho que a massa que eu mais gosto é a que eu mesmo faço.

 

Não falo isso por vaidade. Simplesmente eu preparo a comida do jeito que gosto de comê-la. É o paladar que conduz.

 

A partir do momento em que comecei a trabalhar com comida, adotei intuitivamente o seguinte compromisso: eu só sirvo aquilo que amo comer. Se gosto mais ou menos, não vou vender para você. Pois isto não faz sentido: se eu não gosto muito de um prato, como é que vou prapará-lo para alguém e ainda cobrar por isso? É um desrespeito!

 

Cozinho aquilo que amo comer e cozinhar. Cozinhar é um gesto de amor.

Espero que este artigo inspire você a viver a cozinha em sua essência, que é o amor: por si mesmo, pelos amigos, pela família, pelos ingrendientes, pela cozinha.

Viva esta experiência e transforme sua cozinha em um ambiente de puro afeto!

Ramiro Murillo

Janeiro de 2020